Doce infância
Hoje é um a data única 11/11/11, e eu acordei melancólica, saudosista, cheia de recordações da minha terra natal e de minha infância, não sei o porquê, mas passei o dia inteiro assim. Até que ao chegar ao curso que estou fazendo, minha professora promovia um debate sobre como as nossas lembranças são ativadas pelo cheiro ou pelo gosto de algo que gostamos muito,ela falou sobre uma fruta simples mas de um cheiro e sabor peculiar que se chama Jambo, lembro- me até das palavras que ela usou:” O que é um jambo? Jambo é um algodão envolto em alguma coisa, mas de cheiro e sabor indescritíveis...”
Nesse momento na minha mente houve um estalo, eu comecei a lembrar-me de como essa simples fruta fez parte da minha infância, e como era doce aquela lembrança, vim para casa ao final do curso inquieta, com as lembranças fervilhando na minha mente a ponto de não conseguir dormir, então resolvi escrevê-las.
Parece que foi ontem, mas já faz algum tempo eu tinha oito anos e morava em Recife com minha avó materna que foi quem me criou, todos os dias eu acordava às 6 da manhã para ir á escola, era sempre o mesmo ritual, minha avó me dava uma bronca pois eu não queria acordar, então ela me arrumava e trançava meus cabelos e me trazia meu café da manhã preferido uma tigela quentinha de Munguzá que é uma espécie de canjica de milho amarelo que eu adorava, todos os dias bem cedinho uma senhora chamada Hosana, passava com seu caldeirão num carrinho de mão e uma buzina vendendo aquela iguaria, o cheiro era indescritível, e as pessoas se amontoavam pra comprar as porções que custavam R$ 0,50 a concha.
Já no caminho da escola quando dobrávamos a esquina da rua A, havia uma casa que tinha um pé de Jambo no quintal, este estava sempre carregado de frutos e eu notava que na varanda ficava uma senhora sentada numa cadeira de balanço, como se estivesse vigiando os frutos para que as crianças que iam e vinha da escola por aquela rua não conseguissem roubá-los. Todos os dias eu passava por aquela casa e ficava namorando os Jambos, mas fiquei sabendo pelas crianças do bairro que dona Cecília, que era como se chamava aquela senhora que ali ficava vigiando os jambos, não os dava a ninguém ela os colhia e vendia na feira do bairro.
Na escola um dia notei uma garota nova que entrou na minha turma, era magra, alta, muito desengonçada e tímida, o nome dela era no mínimo esquisito ela se chamava Normanda.É claro que não demorou muito para as crianças saírem caçoando dela por causa do nome e da aparência, quase todos os dias ela ia embora chorando, pois eles não lhe davam sossego e colocavam nela os apelidos mais horrorosos .
Comovida por ver o sofrimento da garota, resolvi me aproximar dela e fazer amizade, já que ela não havia feito nenhum amigo, por causa da timidez. Ficamos amigas, e pra minha surpresa Normanda morava na casa do pé de jambo, ela era neta da dona Cecília e tinha vindo morar com a avó, tratei logo de fortalecer nossos laços de amizade interessadíssima nos Jambos, é claro.não demorou muito e comecei a frenquentar a casa Normanda para brincarmos juntas, e um dia perguntei-lhe se ela sabia o porquê daquele seu nome tão incomum, ela me explicou que seus pais não conseguiam chegar à um acordo sobre como a chamariam,seu pai queria que ela se chamasse Norma e sua mãe queria que ela se chamasse Amanda, como eles não se entendiam resolveram então chamá-la Normanda, unindo assim os dois nomes assim cessariam as brigas entre eles, e ela coitada é quem pagou o Pato de ter que carregar esse nome horrível que ela detestava.Pobre menina!
Combinamos então que eu a chamaria de Amanda que era a parte do nome que ela mais gostava. Nos tornamos grandes amigas, quase todos os dias depois da aula eu ia à casa dela pra brincarmos, sua avó era muito ranzinza e não gostava muito de crianças, mas eu tratei logo de conquistá-la, levando-lhe sempre que podia pimentas vermelhas que ela adorava pra fazer molho, eu as conseguia num terreno baldio perto do porto de barcos, ela então ficou muito minha amiga, e sempre que colhia seus preciosos jambos me dava alguns, e eu me deliciava, levava -os pra casa dava um, apenas um para minha avó, e os outros eu os escondia pra degustá-los sozinha.Hum... Era uma delícia! Aqueles Jambos carmesins doces como mel, um verdadeiro manjar dos deuses.
Eu e “Amanda” adorávamos brincar debaixo do pé de Jambo, pois na época da floração o Jambeiro solta umas pétalas cor de rosa choque, e aquelas pétalas formavam um tapete rosa no chão onde no sentávamos e brincávamos de casinha, de comidinha (e o cardápio era jambo) de bonecas e o que mais a imaginação nos permitisse brincar e sonhar. Eram tardes maravilhosas, como eu era a única amiga dela éramos como irmãs.
O único empecilho a nossa amizade era o tio da normanda, Marcelo o doido, como era conhecido no bairro, o chamavam assim por que ele ficava a noite toda vigiando o pé de jambo a mando de dona Cecília sua mãe, pois o quintal não tinha muro e ele ficava a noite toda vigiando, quem se atrevesse atacar o jambeiro ele revidava com pedradas certeiras e que pontaria ele tinha.Eu que o diga, um certo dia fui a casa de normanda como de costume, chamei e ela não apareceu, tinha saído com sua avó para uma consulta médica, resolvi sentar na calçada e esperar um pouco, me distraí brincando com algumas pedrinhas que achei no chão, quando o Marcelo apareceu do nada, e quando me viu com as pedras na mão, pensou que eu estava tentando roubar jambos arremessando pedras no jambeiro que estava carregado, como sempre o faziam as crianças do bairro quando ele ou dona Cecília descuidavam, as vezes quebravam até as telhas da casa com suas pedradas na tentativa de derrubar os frutos.
Então ele furioso lançou mão de uma pedra no chão e arremessou-a contra mim atingindo o meu queixo, abrindo uma fenda que começou a jorrar sangue, eu saí correndo pra casa com a mão no queixo chorando a gritando vovó o Marcelo doido me acertou uma pedrada, minha avó tomou um baita susto ao ver o tanto que jorrava de sangue, correu comigo para o posto de saúde onde levei três pontos, dos quais tenho a cicatriz até hoje.
Quando dona Cecília e Normanda chegaram, estava armada a confusão minha avó deu parte Ana delegacia do bairro, cujo delgado era muito nosso amigo, e mandou prender o Marcelo mesmo sabendo que ele não era certo do juízo, dona Cecília teve de ir à delegacia onde ficou sabendo ocorrido, e furiosa me proibiu de ir a sua casa brincar com minha amiga, eu chorava de um lado e normanda do outro, pois as duas avós discutiam freneticamente de quem era a culpa.passamos a nos ver somente na escola, onde não tínhamos tempo de brincar,só nos falávamos nos poucos minutos do recreio, as vezes eu passava em frente a casa dela à tardinha e a via sozinha no quintal vigiada pela avó que quando me via logo a colocava para dentro de casa.
Ainda tive tempo de explicar para minha amiga detalhes do ocorrido, ela me entendeu e disse que sabia que a culpa não era minha e sempre que podia me trazia uns jambos escondidos na mochila pois ela sabia que eu os adorava, mas a sua avó não quis saber de conversa nunca me perdoou por tê-la feito passar o vexame de ter que à delegacia buscar seu filho, a quem ela protegia com unhas e dentes por ser especial.
Nossa amizade nunca mais foi a mesma, Normanda continuava sendo a mesma menina solitária e triste de sempre, sem amigos presa em seu mundinho, pois ela era órfã e seus únicos parentes eram a avó e o tio, eu fazia o que podia para alegrá-la, levava-lhe doces, balas de morango eram suas preferidas, ela sorria e me agradecia com Jambos.O ano letivo acabou, entramos de férias e Normanda sofreu um duro golpe sua avó querida que já era muito velhinha faleceu, seu tio que tinha problemas mentais foi recolhido ao manicômio e ela foi morar com sua madrinha em outro estado.
A casa foi demolida e o jambeiro cortado para dar lugar à um restaurante, no dia que o jambeiro veio ao chão eu chorei, pois vi cair junto com ele, as belas lembranças da minha doce infância.Nunca mais tive notícias de minha amiga, logo depois eu também mudei de cidade, pois minha família veio morar em Macaé, mas lembranças mais doces da minha vida ficaram dentro de mim, e hoje eu as eternizo, através da escrita.
Paula Mendes
Essa é nossa 1ª postagem oficial, esse texto foi produzido durante o curso pela aluna Paula e a professora gostou muito.Em breve teremos outras postagens com textos de outros alunos.Esperamos que gostem.
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